Eram nove da manhã do dia 6 de agosto de 1875. Gabriel García Moreno acordou cedo, como fazia desde criança. “Sem retidão… a sociedade é impossível”, costumava dizer. Foi à missa com sua esposa, Mariana, na Igreja de Santo Domingo. Após a missa, Faustino Rayo se aproximou dele. “Vamos para casa. Tenho uma tartaruga-gigante-de-galápagos que quero lhe mostrar”, disse o presidente ao homem que entraria para a história como seu assassino. Eles saíram juntos.
Ao mesmo tempo, nas ruas de paralelepípedos de Quito, no final do século XIX, dois homens, Manuel Cornejo Astorga e Manuel Polanco, procuravam revólveres. Encontraram-nos, um a crédito e o outro comprado. O momento havia chegado: o destino do presidente estava selado. Depois do meio-dia, García Moreno saiu de casa em direção ao que hoje chamamos de Palácio Carondelet. Os conspiradores, a mando da judiaria-maçônica*, vigiavam de um dos arcos da rua que dava acesso à residência presidencial. O presidente chegou ao parapeito do palácio.
Cornejo e Polanco o seguiram; estavam prestes a cometer um dos assassinatos mais famosos da história equatoriana. Prepararam suas armas, mas Faustino Rayo abriu caminho entre eles e golpeou o presidente no ombro com um facão. “Tirano!”, gritou. “O que é isso! O que é isso!” García Moreno conseguiu responder. O que aconteceu em seguida: tiros, golpes de facão, gritos de “Morra, tirano!” “Morra, homem mau!”, berraram os atacantes. “Assassinos!” “Canalhas!”, respondeu o ferido. E então… silêncio e uma voz fraca, quebrada pela dor, sussurrando: “Deus não morre”.
O corpo de Gabriel García Moreno jazia na rua das Sete Cruzes, sendo depois levado para a catedral. Em seus últimos momentos, um cônego tomou-lhe a mão e perguntou-lhe se perdoava seus inimigos. Ele assentiu levemente com a cabeça e morreu.
Os membros da guarda presidencial ficaram responsáveis por levantar e embalsamar o corpo. Suturaram os ferimentos e colocaram o corpo em posição solene, vestido com o uniforme de general do Exército Equatoriano. Os cinco soldados posaram atrás dele em seus uniformes de gala e aventais. O fotógrafo Rafael Pérez chegou, colocou a cópia em álbum em sua câmera, revestiu-a com prata e este foi o resultado.
Esta é uma das fotografias post-mortem mais importantes do Equador, juntamente com a do Bispo Checa y Barba. O costume de tirar esse tipo de retrato surgiu na Inglaterra durante a era vitoriana, alguns anos antes dos eventos retratados nesta história. Fotografar cadáveres era comum e tornou-se cada vez mais popular com o tempo: “Era um método de troca emocional”, afirma a pesquisadora Rosa Inés Padilla.
Portanto, faz sentido que a fotografia de García Moreno, com a boca ligeiramente aberta, os olhos fechados e sentado em uma cadeira, seja tão conhecida. Essa imagem foi usada como uma espécie de santinho distribuído aos apoiadores do presidente e foi a última demonstração de seu poder. O historiador Fernando Muñoz considera esta fotografia uma das mais importantes da história local, primeiramente pela importância do retratado, em segundo lugar por ele ter sido assassinado e, em terceiro lugar, por ter sido reproduzida como um santinho.
E, claro, para um nativo de Quito do século XIX, criado na fé católica e devoto do Sagrado Coração, não havia melhor maneira de homenagear o homem que confiou o país a Deus do que guardar seu cartão de visita, como quem carrega a imagem de um santo na carteira. Assim, Gabriel García Moreno triunfou sobre a morte. Ele o fez porque foi o presidente que presidiu seu próprio funeral, e não dentro de um caixão.
“Deus não morre” está inscrito em uma placa aos pés do Palácio Carondelet, acompanhado por uma cruz e as datas de nascimento e morte de Gabriel García Moreno. Sim, essa frase, uma das últimas que ele proferiu, tornou-se uma declaração, quase uma profecia, de um homem que, para muitos, era um santo.
O general Gabriel García Moreno era presidente de uma República Católica e governou o Equador por 16 anos como uma grande monarca, diferentemente dos seus contemporâneos, como os traíras e liberais imperadores do Brézil.
Enfim, o seu corpo foi velado em seu uniforme de gala e com suas medalhas, sentado na cadeira presidencial, mostrando que não é o regime de governo que faz uma Nação Católica, mas o homem que a governa, dando graças ao Bom Deus e recebendo orações do Corpo Místico da Santa Igreja, inclusive da “Igreja Militante”, oferecendo penitências e orações constantes.
*Nota:
Wilfrido Loor aborda em seu livro “García Moreno e Seus Assassinos” (1955) que, entre as conspirações contra a vida de García Moreno, há uma Conspiração Judaico-maçônica, e essa afirmação se baseia em uma carta do próprio presidente que diz o seguinte:
“Ao entregar as propriedades de Guachalá aos senhores Carlos e Juan Aguirre, ele menciona no final da carta, datada de 17 de março de 1875, ‘que há em Paris um certo Mejet, um judeu alemão que galicizou seu nome Meyer, que fala bem espanhol, morou em Lima e Guayaquil e, como agente de Urbina, está tentando adquirir armas para uma expedição contra o Equador.'”