Cristeros, na sua maioria camponeses católicos e mexicanos bem organizados, procuravam um líder militar com experiência para formar um verdadeiro exército que lutasse por Deus e pela Pátria mexicana. Contudo, contrataram um mercenário, o agnóstico General Enrique Gorostieta Velarde, que apesar de ter recebido uma educação liberal, se reconciliou com a Santa Igreja depois de lutar por Cristo Rey sob a proteção de Nuestra Señora Guadalupana.
– “Eu sou Enrique Gorostieta”, falou o soldado abatido, arquejando-se, com sangue escorrendo pelo buraco por onde uma bala havia aberto no seu peito. E, com desprezo cruel, o inimigo apontou um fuzil Mauser de 7 mm e puxou o gatilho, desferindo um tiro fatal na cabeça do general rendido, em 2 de junho de 1929, na Fazenda San José del Valle, nas Terras Altas de Jalisco.
Um fim rápido e inesperado para o brilhante, carismático, amado e valente General Enrique Nicolás José Gorostieta Velarde, que tinha apenas 38 anos.
Na juventude, orgulhosamente, serviu fiel e inabalavelmente no Exército Nacional Mexicano, combatendo os revolucionários. Porém, depois da abrupta e chocante dissolução do exército e de um exílio forçado, viajou para a Europa, onde se alistou na Legião Estrangeira Francesa para lutar contra as Potências Centrais (uma coligação liderada pelo Império Alemão e pelo Império Austro-Húngaro, com a adesão posterior do Império Otomano e da Bulgária) durante a Primeira Guerra Mundial, na qual participou de algumas das batalhas memoráveis.
Entretanto, o seu período mais glorioso foi o último: como Generalíssimo da Guarda Nacional Cristera, o braço paramilitar, cujo lema era: Deus, Pátria e Liberdade.
Gorostieta nasceu em 18 de setembro de 1890, na casa da família, na Rua Matamoros, 88, em Monterrey, no estado de Nuevo León (México). Primeiro e único filho de Maria Velarde Valdez Llano (1864-1912) e Antonio Maria Enrique Pedro Gorostieta Gonzalez (1856-1921), o casal possuía duas filhas mais velhas: Ana Maria (1887-1935) e Eva Maria Valentina (1886-1955).
Impulsivo, aventureiro e inteligente, Gorostieta nasceu em uma família de classe média alta com raízes bascas. Sofisticados e católicos devotos, que preferiam a discrição à ostentação em relação à sua condição de vida e à sua fé, numa nação assolada pela extrema pobreza e onde 99,5% da população se declarava católica, segundo o censo de 1900.
Após concluir seus estudos primários e secundários no Hidalgo College, em sua cidade natal, ele se inclinou para a carreira jurídica, seguindo os passos de seu pai, um advogado atuante que – quando jovem, foi defensor dos direitos individuais e das liberdades civis – escreveu para vários periódicos para expressar seus ideais de liberdade e ordem, pautados pela consciência social. No entanto, em relação ao seu futuro, a mãe do jovem Gorostieta o influenciou e o encorajou a ingressar no exército; afinal, entre seus ancestrais havia, pelo menos, um herói militar.
Por parte de mãe, ele era descendente do espanhol Pedro Velarde y Santillan (1779-1808), capitão de artilharia que, juntamente com Luis Daoiz y Torres (1767-1808), encontrou a morte heroicamente em 2 de maio de 1808, enquanto defendia o Parque da Artilharia durante a Revolta de Dois de Maio, em Madri, Espanha. Eles deram início ao movimento de independência com sua luta contra as tropas invasoras de Napoleão Bonaparte, desencadeando a Guerra Peninsular (2 de maio de 1808-1814) durante as Guerras Napoleônicas (1803-1815). E, por meio da sua linhagem paterna, ele também possuía uma estimada herança militar. Um de seus avôs, Nicolás Gorostieta, lutou na Guerra da Reforma ou Guerra dos Três Anos (1857-61) e na Segunda Guerra Franco-Mexicana (1861-67), alcançando a patente de coronel.
Em 19 de outubro de 1906, o jovem Gorostieta tomou uma decisão e redigiu um pedido de admissão ao Colégio Militar Heroico, com sede no Castelo de Chapultepec, na Cidade do México. Não era uma academia militar qualquer. Era “la flor y nata”, a nata dos melhores, a versão mexicana da Academia Militar dos Estados Unidos, de West Point, em Nova York.
Pacientemente e impacientemente, ele aguardou uma resposta.
Dois meses depois, em 26 de dezembro de 1906, ele tinha em mãos um presente de Natal um pouco atrasado: o certificado de admissão com suas primeiras ordens oficiais: apresentar-se ao serviço, comprometer-se com oito anos de instrução acadêmica rigorosa, bem como 40 dias de treinamento físico a cada ano letivo, e, após a conclusão – tendo adquirido a disciplina e a autoconfiança necessárias – assumiu o cargo de oficial no Corpo do Exército Mexicano.
Imerso no rígido mundo militar de regulamentos e rotina, ele provou ser um aluno brilhante e um dos melhores cadetes, se destacando e conquistando inúmeros méritos e prêmios, mas, devido ao seu forte temperamento que frequentemente causava conflitos, também acumulou muitas repreensões e punições.
Após quatro anos de instrução e treinamento, ele recebeu sua primeira designação: Corpo de Engenheiros do Exército Mexicano. Mas apenas alguns meses depois, o México aparentemente calmo e estável do Porfiriato mergulhou rapidamente no caos. Conhecido pela ordem e pelo progresso (o mesmo lema “Ordem e Progresso” na bandeira do Brasil é uma derivação direta da frase do maçom francês Auguste Comte, pai do positivismo: “O amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim”), o Porfiriato (1876-1910) foi um período que recebeu esse nome em homenagem a José de la Cruz Porfirio Díaz Mori (1830-1915), cujo reinado começou depois que ele, inicialmente, tomou o poder com sucesso, em 1876.
Mas, após as turbulentas e fraudulentas eleições de 1910, Porfirio (Partido Nacional Reelecionista) não só tentou eliminar seu oponente – Francisco Ignacio Madero González (1873-1913) – prendendo-o, como também declarou fraudulentamente uma vitória quase unânime, alegando ter recebido 99% dos votos, enquanto Madero (Partido Nacional Antirreelecionista) teria, supostamente, recebido apenas 1%. Enfurecidos, os eleitores exigiram a destituição de Porfirio, dando início à Revolução Mexicana (1910-1920). O Plano de San Luis Potosí, publicado e distribuído secretamente por Madero, convocava a revolução para começar às 18h do dia 20 de novembro de 1910.
Para ajudar a fortalecer o regime em declínio, Gorostieta deixou para trás seus livros e suas botas de gala e se ofereceu como voluntário para o serviço ativo no Exército Federal de Porfirio (1876-1914) – conhecido como Federales – para combater os revolucionários maderistas. Em 6 de maio de 1911, aos 20 anos, recebeu sua primeira designação militar profissional: a nova companhia de metralhadoras, sob o comando do General Guillermo Rubio Navarrete (1877-1949).
Seu pai – um homem de letras – escreveu-lhe:
“Você agiu muito bem ao se oferecer para servir quando o governo solicitou à faculdade. É seu dever, e quando é seu dever, não há espaço para hesitação ou indiferença. Lamento que tenha que cumprir sua cota tão cedo, mas só posso elogiar sua espontaneidade em aceitar o desafio. O que importa agora é aceitá-lo com coragem e resignação, fazendo tudo ao seu alcance para manter, pela honra do país, a reputação da Instituição à qual pertence, é claro, de maneira séria e ponderada, com muita obediência, muita disciplina, coragem e serenidade diante do perigo.”
Em 1904, o projeto para a criação do Partido Católico Nacional (PCN) foi apresentado diretamente ao maçom Porfirio Díaz, este que foi reconhecido como um membro ad vitam (vitalício) do Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito, ocupando o grau 33 com a alcunha de “El Pelicano”, inclusive, Benito Juárez, seu antecessor, também pertencia a essa liga maçônica (apelidado de “Guillermo Tell”). No entanto, como era de se esperar, o ditador maçom julgou a iniciativa “inoportuna” (decretou-a como uma iniciativa natimorta).
Contudo, os proponentes, por sua vez, preferiram não entrar em confronto direto com o ditador na época. Porém, o desejo tornou-se uma urgência entre 1909 e o início de 1911, quando grupos católicos na Cidade do México, Morelia e Puebla começaram a ver a ação política não apenas como um ideal, mas como uma necessidade imediata, ou seja, uma missão de estado de sobrevivência para a reconstrução da pátria diante da queda iminente do porfirismo. Só que antes disso, os líderes da Cidade do México convocaram os líderes das cidades de Morelia e Puebla e, após entrarem em acordo, levaram o projeto novamente ao conhecimento de Díaz (antes de sua queda definitiva), que desta vez deu sua aprovação e aplauso, pois Carmen Romero Rubio (conhecida como “Carmelita”), a segunda esposa de Porfirio Díaz, era uma católica extremamente devota e fervorosa, portanto a sua influência religiosa foi um dos pilares da política dessa “reconciliação”. O partido foi oficialmente organizado com um programa que defendia a liberdade de ensino (incluindo o católico), a justiça social baseada nos princípios católicos e a participação proporcional nas câmaras. Entretanto, o partido somente passou a existir, de fato, e a atuar publicamente em maio de 1911, logo após a renúncia de Díaz e o fim da “Revolução Maderista” (Tratados de Ciudad Juárez) promovida por Francisco Ignacio Madero. Contudo, a sua primeira grande convenção ocorreu em 1911, onde decidiram apoiar, para a presidência, o espírita e maçom Francisco Ignacio Madero, da loja maçônica “Gran Logia Valle de México Lealtad No. 15”, iniciado em 19 de maio de 1908 e, posteriormente, em 1912, alcançou altos graus no Rito Nacional Mexicano. (UM ERRO BASEADO NA DETURPAÇÃO DO CONCEITO DE MAL MENOR, O MESMO ERRO QUE OS NEOCONS-OLAVÓIDES-BOZOMÍNIONS-MONARCÓLATRAS COMETEM NO BRASIL).
Porfirio Díaz ficou conhecido, também, pela frase “Tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos”, que baseou o seu governo na aproximação com o vizinho para investimentos e modernização, estabilizando relações. O Supremo Conselho do Grau 33 da Jurisdição Sul dos Estados Unidos (com sede em Charleston/Washington), que é historicamente considerado o “Conselho Mãe Maçônico do Mundo”, mantinha relações estreitas com Díaz. Inclusive, documentos históricos – conhecidos como Telegrama de 1924 – apontam que, logo após a eleição do maçom Plutarco Elías Calles, a KKK (Ku Klux Klan) enviou mensagens de felicitações, expressando solidariedade à sua postura contra a “influência romana” no México. Porém, os Cavaleiros de Colombo (Knights of Columbus) nos EUA apoiaram ativamente os Cristeros durante a Guerra Cristera (1926-1929) no México, arrecadando mais de US$ 1 milhão para ajudar católicos exilados e seminaristas. Enfim, essa “Guerra por Procuração” aconteceu dentro dos EUA: a KKK pressionava pelo aniquilamento do Catolicismo no México e os Cavaleiros de Colombo pressionavam o governo estadunidense para sancionar Calles.
Com as probabilidades contra a sobrevivência política – e muito menos física – de Porfirio, o presidente maçom renunciou em 25 de maio de 1911 e fugiu do país para a Espanha seis dias depois, em 31 de maio de 1911.
Imbuído do ideal de lealdade e corporativismo idolátrico à instituição que o formou, Gorostieta permaneceu fiel ao Exército Federal e defendeu as forças que acabara de combater. Em apoio ao regime de Madero, juntou-se às batalhas contra os zapatistas o Exército de Libertação do Sul, liderado pelo General Emiliano Zapato Salazar (1879-1919), que ostentava não um, mas dois nomes de guerra: “Caudillo do Sul” e “Átila do Sul”.
Distinguindo-se por inovações notáveis, como o transporte secreto de destacamentos militares armados com armas de grosso calibre a bordo de gôndolas ferroviárias, Gorostieta ascendeu rapidamente na hierarquia. Inicialmente promovido a chefe de uma seção de metralhadoras, foi logo promovido, em fevereiro de 1912, ao posto de capitão de artilharia tática de 2ª classe, como recompensa por seu desempenho exemplar. Nessa época, também lhe foi concedida, gentilmente, uma transferência para Monterrey, para cuidar de sua mãe gravemente enferma, que faleceu pouco depois de sua chegada.
Porém, mais agitação civil atingiu o país: os Dez Dias Trágicos (9 a 19 de fevereiro de 1913), uma tomada violenta do governo, organizada por porfiristas leais, fugitivos da prisão que se insurgiram para se opor a Madero, traído por seu comandante recém-promovido do Exército Federal Mexicano, o general José Victoriano Huerta Márquez (1850-1916), que mudou de lado, juntou-se aos rebeldes e liderou a revolta.
Capturado pelos insurgentes, Madero foi preso e forçado a renunciar em 18 de fevereiro de 1913. No dia seguinte, 19 de fevereiro, Huerta assumiu a presidência e, impiedosamente, ordenou a execução de Madero, que ocorreu em 22 de fevereiro.
Huerta governou com mão de ferro, confiando fortemente em seu exército e relegando muitos de seus oficiais a cargos sinecuras. Isso incluiu Gorostieta, que conquistou uma posição-chave na equipe presidencial e, mais uma vez, recebeu tratamento preferencial: promovido a primeiro-capitão em 11 de março de 1913 e, dois meses depois, em 5 de maio de 1913, o próprio Huerta lhe concedeu a Medalha de Mérito Militar de Terceira Classe, geralmente reservada apenas para aqueles que completavam 20 anos de serviço.
Rumores revolucionários surgiam no interior, longe da capital e do centro do poder. No nordeste, o recém-formado Exército Constitucionalista de José Venustiano Carranza de la Garza (1859-1920) ameaçava o regime de Huerta.
Ainda fazendo parte da equipe de Huerta, Gorostieta se ofereceu como voluntário, em 14 de junho de 1913, para se juntar ao contingente que enfrentou os insurgentes carrancistas, que se mostraram deficientes e desorganizados como tropas. Semanas depois, em 2 de julho de 1913, os Federales entraram em confronto com os rebeldes no sopé de Candela, no estado de Coahuila, e saíram vitoriosos após apenas sete horas de combate.
Pelos serviços prestados, Gorostieta recebeu mais promoções: em 18 de agosto de 1913, ao posto de major tático permanente de artilharia; em outubro, a tenente-coronel tático de artilharia, encarregado do regimento de metralhadoras; e, em 8 de novembro de 1913, a coronel tático de artilharia permanente, por suas contínuas modernizações militares de classe mundial.
Mais uma vez, apenas alguns meses depois, surge outra ameaça, desta vez interferência estrangeira dos vizinhos do norte.
Gorostieta juntou-se às forças enviadas para defender o Porto de Veracruz, no Golfo do México, onde a frota da Marinha dos Estados Unidos havia estabelecido um imponente bloqueio intransponível com 65 grandes navios de guerra, transportando 30.000 marinheiros e soldados de infantaria e quase 700 canhões de grosso calibre que bombardearam o porto indefeso.
A barricada – que causou o Incidente do Ypiranga – tinha como objetivo impedir a chegada programada, em 21 de abril de 1914, do SS Ypiranga, um navio a vapor com hélice no qual os alemães haviam embarcado armas para Huerta. Mas o presidente democrata dos Estados Unidos da América – Thomas Woodrow Wilson (1856-1924) – opôs-se ao regime de Huerta, apoiou os revolucionários e manteve os navios da marinha americana no porto de 21 de abril a 23 de novembro de 1914.
Com total despreocupação, os alemães simplesmente navegaram pela costa e descarregaram a enorme carga no então chamado Porto México. A carga consistia em mais de 15.770 caixas: 14.250 caixas de cartuchos, 1.500 caixas de carabinas e 20 caixas de metralhadoras de tiro rápido, de acordo com o manifesto obtido pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
Pela sua meritória participação, o destemido Gorostieta foi promovido, em 14 de julho de 1914, ao posto de general de brigada da artilharia permanente, aos 24 anos, o mais jovem oficial militar federal a alcançar esse posto no exército nacional.
No entanto, em 15 de julho, apenas um dia após a promoção de Gorostieta, Carranza e seus carrancistas finalmente derrubaram Huerta, que renunciou às pressas, embarcou no navio alemão SMS Dresden – Seiner Majestat Schiff, Navio de Sua Majestade – e fugiu para Kingston, na Jamaica.
O novo regime não apenas substituiu o presidente, mas também o exército que defendia a sede do poder. No mês seguinte, em 13 de agosto de 1914, o General Gustavo A. Salas, do Exército Federal; o Vice-Almirante Othon Pompeyo Blanco Nunez (1868-1959), da Armada Mexicana; e o General Álvaro Obregón Salido (1880-1928), do Exército Constitucionalista, reuniram-se em torno de um Packard Modelo 30 Touring Sedan de 1911. No para-lama dianteiro esquerdo, assinaram os Tratados de Teoloyucan, que estipulavam a rendição do Exército Federal, sua dissolução e sua substituição pelo Exército Constitucionalista de Carranza (1913-20), conhecido como Carrancistas.
Exonerado do posto de brigadeiro-general, Gorostieta mergulhou no exílio, indignado com a Revolução e seus revolucionários, que haviam destruído sua vida e sua carreira.
“Esses indivíduos da Revolução, esses – que se acham – super-homens, estão encharcados de sangue mexicano da ponta dos cabelos às unhas dos pés”, lamentou ele.
Seu pai viúvo – um homem instruído que havia sido vice-governador do estado de Nuevo León no regime de Porfirio e ministro das finanças e da justiça nos regimes de Madero e Huerta – juntou-se ao filho no exílio.
Em 25 de setembro de 1914, os dois homens se espremeram a bordo do SS City of Tampico, um navio a vapor de gado lotado de refugiados políticos, incluindo quatro ex-secretários de Estado, três ex-governadores, dois generais e um bispo católico. De Veracruz, pai e filho partiram e desembarcaram em Galveston, Texas, onde, pelos dois anos seguintes, conseguiram o básico para sobreviver, como comida e moradia, trabalhando em empregos braçais.
Em meados de 1916, o jovem Gorostieta, juntamente com alguns ex-combatentes (soldados mexicanos), desertou de Laredo, Texas, e foi enviado para a Europa, onde se alistou no Regimento de Marcha da Legião Estrangeira (Regiment de Marche de la Légion Étrangere, RMLE), uma unidade de choque do Exército Francês formada em 11 de novembro de 1915. Seriam corpos frescos, enviados para o sangrento moedor de carne da Primeira Guerra Mundial (1914-18).
Foi a unidade mais condecorada da Legião Estrangeira Francesa – o contingente de elite de voluntários estrangeiros do Exército Francês – dos 42.883 soldados da unidade de Gorostieta, 30.172 foram mortos – uma taxa de baixas de 70% – lutando em diferentes frentes durante a segunda metade da Grande Guerra, que, no total, ceifou a vida de aproximadamente 9 milhões de soldados e 8 milhões de civis.
O Regimento participou heroicamente em:
A Batalha de Verdun (21 de fevereiro a 18 de dezembro de 1916) foi a mais longa batalha da guerra. A Batalha do Somme (1º de julho a 18 de novembro de 1916) foi uma das batalhas mais sangrentas da história. A Batalha das Colinas, também conhecida como a Terceira Batalha de Champagne (17 de abril a 20 de maio de 1917). A Segunda Batalha de Villers-Bretonneux (24 a 27 de abril de 1918), historicamente marcada pelo primeiro combate entre tanques do mundo e pela morte do belo aristocrata Manfred Albrecht Freiherr von Richthofen (1892-1918), o ás da aviação, apelidado de “Barão Vermelho” por sua linhagem nobre e por pintar seu avião de vermelho. A Segunda Batalha do Marne (15 a 18 de julho de 1918). A Batalha de Soissons (18 a 22 de julho de 1918). E a Ofensiva dos Cem Dias (8 de agosto a 11 de novembro de 1918), que culminou com a ruptura da Linha Hindenburg, em setembro de 1918, foi o princípio do fim para os alemães.
Ao término da Primeira Guerra Mundial, às 11 da manhã de 11 de novembro de 1918 – a 11ª hora do 11º dia do 11º mês – Dia do Armistício, um introspectivo Gorostieta iniciou uma jornada terapêutica pela Europa, praticando e aprimorando suas habilidades em inglês, francês, alemão e italiano. Mas logo deixou o Velho Mundo rumo ao Novo, atravessando o Oceano Atlântico de volta para Havana, Cuba, onde encontrou trabalho em uma fábrica de vassouras. De lá, reencontrou brevemente seu pai, que ainda morava em Laredo. O pai de Gorostieta faleceria ainda naquele ano, em 9 de maio de 1921, aos 65 anos, exilado de sua terra natal, sozinho, sem família.
Com a política mexicana tão desordenada como de costume, quase seis anos após depor Huerta, Carranza suspeitou de um golpe iminente, roubou ouro do tesouro mexicano e fugiu para Veracruz. Mas não conseguiu escapar do próprio assassinato, em 21 de maio de 1920, que abriu caminho para a ascensão de Felipe Adolfo de la Huerta Marcor (1881-1955) ao poder. A execução de Carranza deu a Gorostieta, exilado politicamente, a oportunidade de retornar ao México no início de 1921.
No ano seguinte, aos 31 anos, deixou a vida de solteiro e casou-se com sua amiga de infância, Gertrudis “Tulita” Lasaga Sepulveda, um verdadeiro amor. O Sacramento do Matrimônio aconteceu no bairro aristocrático da Colônia de San Rafael, na Cidade do México, em 22 de fevereiro de 1922, na histórica Igreja Paroquial dos Santos Cosme e Damião, cuja construção começou em 1672.
O primeiro filho do casal, também chamado Enrique, ainda muito pequeno (em idade de engatinhar ou dar os primeiros passos), teria ingerido acidentalmente uma substância cáustica ou um veneno (algumas fontes mencionam raticida ou um produto de limpeza forte) que estava ao seu alcance em casa. A ingestão causou danos internos severos e irreversíveis, levando-o à morte em pouco tempo.
A perda atingiu o casal recém-casado, angustiado com a morte do primeiro filho ainda no útero. Mais sofrimento se seguiu quando o primogênito, Enrique (24 de setembro de 1923 – 6 de maio de 1924), faleceu tragicamente na infância. Mas eles receberam mais três bênçãos: o segundo filho, também chamado Enrique “Kiko” (nascido em 18 de janeiro de 1925), seguido por Fernando “Nillo” (nascido em 28 de julho de 1926) e, finalmente, Luz Maria (nascida em 25 de janeiro de 1928), que nunca chegou a ser abraçada ou beijada pelo pai.
A perda afetou profundamente seu casamento com Gertrudis Lasaga, embora o casal tenha tido outros três filhos posteriormente (Enrique — nome dado em homenagem ao falecido —, Gertrudis e Teresa). Historiadores sugerem que a morte trágica do primogênito contribuiu para o distanciamento de Gorostieta da fé católica praticante durante boa parte de sua vida adulta. Ele não conseguia conciliar a ideia de um Deus bondoso com a morte agonizante de um filho inocente. O general mergulhou ainda mais em sua carreira militar e em seus negócios (trabalhou em uma fábrica de sabão antes da guerra), buscando no rigor do dever uma forma de lidar com o luto.
Pois, com a família crescendo, ele precisava de dinheiro. Ainda ressentido com os revolucionários por terem arruinado sua carreira e segurança financeira, ele fazia o que podia para conseguir dinheiro: tentou a sorte como empresário especializado em produtos químicos de consumo, em Azcapotzalco, um distrito no noroeste da Cidade do México; no entanto, esse empreendimento fracassou depois que o regime bolchevique interferiu nos negócios. Mas ele conseguiu introduzir com sucesso a bala SalvaVidas – conhecida nos Estados Unidos como LifeSavers – importada da Mint Products Company, de Nova York. Ele também atuava como administrador da fazenda de seus sogros, em Torreón, no estado de Coahuila, especializada em alfafa, algodão, uvas e trigo. Para ganhar alguns pesos extras, escrevia manuscritos sobre temas técnicos e econômicos. E, eventualmente, encontrou um emprego estável administrando uma fábrica de sabão. Mesmo assim, a família sempre enfrentou dificuldades financeiras.
Contudo, em 2 de julho de 1926, tudo mudou, não apenas para os Gorostietas, mas para todos os católicos no México.
Naquele dia, uma lei que promovia a perseguição religiosa – especificamente forçando os fiéis católicos à submissão ao Estado – foi publicada no jornal oficial de propaganda do regime, o Diário Oficial, com o extenso nome oficial: “Lei que reforma o Código Penal para o Distrito e Territórios Federais sobre crimes de direito comum, e para toda a República sobre crimes contra a Federação: de crimes e contravenções em matéria de culto religioso e disciplina externa”.
Mais conhecida como Lei Calles – devido à sua promulgação pelo presidente maçom e corrupto Plutarco Elias Calles (1877-1945) – ela representou um apelo nacional à ação, tanto para católicos quanto para catolofóbicos (um sentimento de aversão, preconceito, discriminação ou rejeição aversiva contra a Igreja Católica, seus fiéis, dogmas ou instituições), de que as leis discriminatórias e preconceituosas contra a religião presentes na Constituição Política dos Estados Unidos Mexicanos de 1917 seriam aplicadas. Especificamente, cinco artigos visavam, criminalizavam e eliminavam certos aspectos da Igreja: Artigo 3 (escolas paroquiais), Artigo 5 (ordens monásticas), Artigo 24 (culto público), Artigo 27 (propriedade da Igreja) e Artigo 130 (direitos do clero).
Os católicos reagiram rapidamente com ações preventivas.
Primeiramente, a Liga Nacional para a Defesa da Liberdade Religiosa convocou um boicote socioeconômico – com início em 21 de julho – para enfraquecer o regime, paralisando a base econômica do país que sustentava a administração autoritária. A Liga era uma organização guarda-chuva, fundada por católicos urbanos e intelectuais, em março de 1925, dedicada à defesa da fé e à educação dos fiéis, em resposta ao anticlericalismo do governo, um fator constante desde a Guerra da Independência do México (1810-1821).
Em segundo lugar, o episcopado mexicano anunciou em sua Carta Pastoral de 25 de julho de 1926 que, em 31 de julho, todo o clero se retiraria das igrejas; caso contrário, estariam coniventes com o Estado contra a Igreja. As igrejas permaneceriam abertas, se possível, mas somente sob a direção e os cuidados dos leigos.
Em terceiro lugar, para unificar e organizar as atividades, a Liga – defensora da Igreja e da pátria – realizou uma Convenção Nacional no final de agosto, em uma casa na Rua Donceles, no coração da Cidade do México, onde Rafael Ceniceros y Villarreal (1855-1933), presidente da Liga, discursou para os presentes.
Apontando para uma imagem de Cristo crucificado, Ceniceros instruiu: “Vejam, ali está o Perseguido. Mesmo sendo Deus, Ele não poderia fazer mais por nós do que já fez, e, no entanto, se Ele voltasse para pregar o Seu Evangelho, eles O crucificariam novamente, e talvez com ainda mais amargura e fúria. Não estamos fazendo algo por Ele em correspondência ao Seu amor?”
“Sim!” Todos gritaram em comemoração. “Sim!”
“Então juremos lutar por Sua causa, até morrermos ou alcançarmos a vitória!”
“Juramos!” Exclamaram todos, levantando-se de seus assentos e estendendo o braço direito em saudação romana, usada no México para recitar o juramento de fidelidade.
Em quarto lugar, em setembro de 1926, os prelados mexicanos apresentaram às duas Casas do Congresso Mexicano – o Senado da República e a Câmara dos Deputados – uma petição que solicitava a reforma dos artigos 3, 5, 24, 27 e 130. Dias depois, 2 milhões de assinaturas – coletadas em todo o México, principalmente pela Liga das Nações – também foram entregues às Casas, em demonstração de apoio às mudanças. No entanto, no dia 23, a Câmara dos Deputados rejeitou a petição por 171 votos a 1. A justificativa: por conspirarem com o Estado da Cidade do Vaticano – uma suposta entidade estrangeira – os prelados teriam perdido o direito de peticionar como cidadãos.
Apesar disso, a Lei Calles entrou em vigor, e os revolucionários do regime, que odiavam a religião, começaram – sem restrições – a tomar o controle das propriedades da Igreja e a perseguir os fiéis: prendendo, encarcerando, torturando e executando.
Em resposta, os católicos se rebelaram em alguns pontos, esporadicamente, contra a brutalidade. Violentos confrontos eclodiram e cessaram. Insurreições armadas – algumas, com o apoio da Liga – cresceram incontrolavelmente e continuamente. Mas nada se desenvolveu em uma unidade coesa ou organizada. Os líderes da Liga perceberam que o braço militarizado de seu Movimento precisava de um verdadeiro comandante, um militar de carreira, com experiência, conhecimento técnico e perícia. Precisavam de alguém que pudesse controlar e liderar as tropas Cristeras dispersas, indisciplinadas, porém ávidas por lutar.
Após contatar vários possíveis candidatos – incluindo ex-porfiristas, ex-revolucionários e até mercenários ávidos por dinheiro – ninguém demonstrou interesse. Por fim, Bartolomé Ontiveros – chefe do recém-formado Comitê de Guerra da Liga – recomendou um velho amigo seu, um oficial que havia servido no extinto Exército Federal: Gorostieta.
Posteriormente, Manuel Delgado, membro da Liga, convidou Gorostieta, que se apresentou, um dia em dezembro de 1926, ao presidente da Liga, Ceniceros, e ao Comitê Executivo. A reunião começou às 9 da manhã, estendeu-se até depois do meio-dia, durou a tarde toda, entrou pela noite e terminou às 21h daquele dia.
Após 12 horas de negociações, encontraram o homem certo, um verdadeiro guerreiro tático.
Longe de casa, reunindo-se com membros da Liga, trilhando um novo caminho para sua vida, a de sua família e até mesmo para a nação, ele escreveu à esposa uma comovente carta de amor, datada de 22 de dezembro de 1926. Embora repleta de votos de Natal, nas entrelinhas, parecia quase uma carta de despedida, cheia de saudade, angústia e reflexões, enquanto ele embarcava em sua jornada épica.
Para que meu amor, meu carinho e minha veneração não diminuam e sejam dignos de você, esforcei-me ao máximo para me corrigir e me aperfeiçoar. Aumentei minha disciplina moral a tal ponto que declaro a você (e é isso que lhe ofereço hoje como presente): que seu marido é um homem puro, ainda mais do que quando eu era seu namorado. Que seu marido a ama ainda mais do que quando eu, como seu noivo, a amava. E que, hoje, seu marido a venera, a ama, a deseja e a respeita muito mais, muito mais do que outrora, quando você aceitou seu amor em meio ao rubor de uma noiva provinciana e lhe disse um “Sim” que prometia o paraíso. Com esta confissão (seu presente de Natal) vem a certeza de que continuarei assim, digno de suas virtudes e seus encantos. Isto é para você, meu amor.
“Para os meus filhinhos – a quem não posso dar um beijo, para quem não posso comprar uma bola, a quem não posso, como tantas vezes fiz, segurar adormecidos nos meus braços – numa data tão grandiosa para o mundo, num dia em que até os animais se comovem com a Glória, por intermédio de vocês, envio-lhes este presente: todas as dificuldades que eles sofrem, toda a dor que vocês e eu suportamos, servem apenas a um propósito: legar-lhes um caminho, traçar-lhes uma rota. Sei que existem caminhos mais fáceis no mundo, e Deus sabe que sei como percorrê-los. Mas não são esses os caminhos que deixarei marcados para eles. É o mesmo caminho árduo e sombrio que o avô deles traçou para mim. É o único que existe, de modo que sempre nos alegramos ao terminá-lo e poder contar a história da jornada. O único que, uma vez percorrido, proporciona a verdadeira paz. Dou-lhes de presente as dificuldades e as dores que o caminho me impõe. Encha-os de beijos e não se canse de os proteger – não agora, mas nos anos vindouros.” – Impedi-los de perder a fé nesse caminho.”
Com o prosseguimento da guerra, as negociações formais entre a Liga Cristera e Gorostieta, referentes ao seu pagamento e posição, também continuaram. Finalmente, em maio de 1927, as conversas entre os dois resultaram em um acordo: oficialmente, ele se juntaria à alta cúpula da Guarda Nacional, a força de combate do Movimento Cristero de Libertação, em troca de 3.000 pesos de ouro que seriam entregues mensalmente à sua esposa, além de um seguro de vida de 20.000 pesos de ouro, a ser pago após sua morte. Tragicamente, sua esposa recebeu do advogado Luis Alcorta – representante da Liga Cristera – apenas três pequenos pagamentos de 50 pesos de ouro, referentes aos três primeiros meses de participação de Gorostieta na Guerra Cristera, e depois disso, nada mais. Além disso, ela nunca recebeu o valor do seguro após a morte dele.
No final de julho de 1927, com as discussões finalizadas, a Liga nomeou oficialmente Gorostieta chefe militar do setor de Jalisco para a Santa Causa. Seus motivos para aceitar o cargo foram muitos, alguns circunstanciais, outros ideológicos. Mas para o Soldado de Cristo, houve um incidente que simplificou e esclareceu tudo: com a ascensão da Revolução e a consequente perseguição à Igreja, o regime não só forçou a Igreja à clandestinidade, como também incentivou a criminalidade (roubos de comidas eram constantes), a corrupção e até o vício.
Gorostieta chegou a compartilhar o mesmo espaço com o companheiro Cristero Aurelio Acevedo Robles (1900-68):
“Minha esposa me deu um filho. Saí pelas ruas procurando um padre que o batizasse para mim e corri por toda a cidade até que vi um passar de carro. Peguei outro carro e o segui até alcançá-lo.”
“Mas aconteceu que, durante minhas andanças pela cidade, deparei-me com um bordel, com a porta aberta para a rua, de onde se podia ver, do lado de fora, um espetáculo degradante e repugnante: uma dança de rufiões e prostitutas nus.
“Então eu disse a mim mesmo: ‘Se no meu país estamos lutando, como acabei de fazer, para encontrar um ministro do Senhor que nos dê os Sacramentos, e, em vez disso, a devassidão reina por toda parte, significa que o país está ameaçado de morte pela prostituição e pelo crime, e que é dever de todo mexicano defendê-lo.’ Refleti sobre isso e aceitei as propostas da Liga para lutar por Deus, pela pátria e pela liberdade.”
Antes de assumir oficialmente seu posto e partir para o campo de batalha, Gorostieta passou suas últimas horas na Cidade do México com seus entes queridos e confirmou que ia para a guerra por convicção, em defesa dos direitos de Deus. Em família, pela última vez, rezaram o terço juntos, e ele abençoou e encomendou a Deus: sua esposa, o bebê que ela carregava no ventre e seus dois filhos pequenos, Enrique, de 2 anos, e Fernando, de 1 ano.
Ao assumir o comando de suas tropas nas terras altas de Jalisco, Gorostieta mal havia começado a organizar seus homens – tentando incutir disciplina e ordem, preparando-os para a guerra – quando se depararam com sua primeira batalha, em 14 de setembro de 1927. Embora em grande desvantagem numérica, Gorostieta e seus 50 soldados lançaram uma ofensiva militar e derrotaram com sucesso os Callistas em Mesa del Coyote, nos arredores de Jalpa, no estado de Zacatecas, iniciando uma sequência de vitórias que duraria quase 21 meses, terminando apenas com sua morte.
Algumas semanas depois, em outubro, enquanto ele e seus soldados sitiavam a cidade vizinha de Jalpa, Gorostieta colocou em prática um de seus objetivos: em vez de destruir o inimigo, como outros líderes militares poderiam fazer, sua intenção era quebrar a vontade do inimigo e impor a sua própria.
Funcionou.
Desesperado, o general “callista” Anacleto López Morales (1884-1970) – chefe de operações em Zacatecas, que comandava a coluna federal contra Gorostieta – enviou o seguinte despacho, um último sinal de socorro, interceptado pelos Cristeros:
“Os poucos soldados que me restam estão cercados pelos rebeldes na cidade de Jalpa. Não tenho munição nem dinheiro, e o moral das tropas está em frangalhos. Milhares de inimigos ocupam os cumes das montanhas que circundam Jalpa; portanto, é impossível manter ou abandonar este lugar sem receber reforços de soldados, dinheiro e munição para alimentação e guerra.”
Apenas três dias após Gorostieta e seu contingente da Guarda Nacional se entrincheirarem em torno de Jalpa, o 75º Regimento se rendeu. Todos foram libertados, exceto um, um capitão em particular, que em 16 de agosto havia decapitado o oficial Cristero Luciano Valdovinos Medina, filho do coronel Teófilo Valdovinos Ruiz, um Cristero muito popular presente na escaramuça.
Após a vitoriosa Batalha de Jalpa, em conversa com o Coronel Manuel Ramirez de Oliva, o caridoso Gorostieta expressou, de forma filosófica, uma sincera compaixão por seus compatriotas mexicanos, mesmo por aqueles que enfrentou em batalha.
“Cada homem que morre nesta guerra deixa um vazio em sua família e em seu país. De que lado ele morre, o país perde um de seus filhos. Infelizmente, eles têm que morrer. Nosso povo anseia por vingança, e é muito difícil para mim convencê-los e controlá-los para que não fuzilem todos os prisioneiros, imitando nossos adversários, porque o governo tem agido com crueldade e severidade, sacrificando culpados e inocentes, e muitos Cristeros viram alguns de seus parentes ou amigos serem executados.”
Durante seus primeiros 161 dias, ele e seus Soldados de Cristo – alguns a cavalo, outros a pé – percorreram exaustivos 4.500 quilômetros. Constantemente em movimento, Gorostieta organizou seus homens da melhor maneira possível, com suprimentos limitados e pouca comunicação entre o quartel-general da Liga na capital e os campos de batalha no interior.
Sob o sol o dia todo, todos os dias, sua pele branca ardia em tons avermelhados. Seus cabelos castanho-claros, com mechas loiras descoloridas pelo sol, emolduravam seus imensos olhos azuis. Disciplinado e bem-apessoado, mesmo em meio à natureza, mantinha a barba loira aparada e limpa. Seu uniforme, simples: calças de montaria verde-acinzentadas com cinto, um cardigã de lã verde-escuro, um casaco de pele de carneiro preto, botas Chantilly de corte elegante e um cinto com coldre. Mas foi seu chapéu “fedora” que se tornou sinônimo do general. Identificado por amigos e inimigos pelo chapéu de feltro preto que sempre usava, ficou conhecido como “Gorra Prieta”, um trocadilho inteligente com seu nome, Gorostieta.
Quanto às tropas, as suas eram compostas por dois tipos:
Um grupo era composto por jovens cultos, refinados e eruditos, muitas vezes intelectuais de áreas urbanas, recrutados em organizações católicas. O outro era formado principalmente por camponeses analfabetos, sujos, rudes e simples, com fortes crenças e costumes religiosos, que, a princípio, olhavam com suspeita para o general – um homem culto que não gostava de expressar abertamente sua devoção cristã por causa de seu temperamento austero e reservado, que lembrava os antigos estoicos greco-romanos.
Após quase seis meses convivendo com suas tropas, Gorostieta compreendeu plenamente os problemas que enfrentava com seus soldados inexperientes e negligentes. Para solucionar todas as questões, ele expôs, em sua Circular de 27 de dezembro de 1927, a dura verdade que retratava e revelava com honestidade a situação desesperadora de seus homens e da guerra, bem como as mudanças necessárias:
“No curto período em que tenho convivido com nossas forças, bem como nos diversos tiroteios que presenciei em sua companhia, pude constatar que o espírito que anima nossos soldados está longe de ser satisfatório. Percebi, especialmente durante as marchas, uma completa falta de vontade de suportar o trabalho e a fadiga que uma campanha acarreta. Embora nunca tenhamos sofrido com a comida que o povo pobre tão generosamente nos oferece, ouvi queixas. Observei uma completa falta de obediência às ordens dos líderes e oficiais e, nos casos em que uma ordem era exigida, a preguiça e a demora em cumpri-la eram evidentes.”
“Nos tempos de combate, vi e senti que os esforços de alguns líderes e oficiais bravos e corajosos, assim como os de alguns soldados dignos de serem chamados de Soldados de Cristo, são frustrados pelo terror que se apodera das massas, para quem os esforços de alguns são inúteis e para quem a emulação e o exemplo do líder não servem de nada. Por outro lado, tive que constatar com espanto que, como é natural, nossos soldados estão acostumados a passar a maior parte do tempo em casa, que abandonam as fileiras sob qualquer pretexto e vagueiam em grupos muito pequenos, vítimas fáceis para o inimigo. Quase não passa um dia sem que eu receba a notícia de um soldado que foi morto, após ser surpreendido sozinho.”
“Estudando a forma de corrigir todos esses vícios que estão destruindo a merecida reputação conquistada pelas tropas libertadoras, investigando a causa dessa desmoralização que ameaça destruir nossas forças, creio poder assegurar que ela se deve à falta de cuidado que se tem tido na admissão de soldados em nossas forças. Nossas forças não são mais compostas, como eram no início, apenas por homens de fé e crenças profundas, mas agora buscam apenas viver sem trabalhar, para poder praticar seus vícios e até mesmo ter a oportunidade de satisfazer esses apetites.”
“O que importa a Causa de Deus para esses indivíduos? O que significa para eles uma derrota de nossas forças? E o sorriso de desprezo com que nossos próprios amigos já nos recebem? Eu, como responsável pela Guarda Nacional e pela organização de nossas forças, como responsável perante ela e a nação pela sua moralização, estou convencido de que jamais alcançaremos a vitória enquanto essas condições não mudarem e que, se as coisas continuarem como estão, só conseguiremos destruir o patrimônio público, levando em conta que as razões dadas para justificar o estado atual das coisas não são razões, mas desculpas para vícios e até mesmo covardia. Alegar como causa de desobediência o fato de as tropas não receberem salários, por um lado, deveria ser motivo de orgulho para nós e, por outro, é evidente que temos a obrigação, como cidadãos, de pegar em armas para defender as liberdades públicas que foram violadas e, como católicos, para obter a liberdade de nossa Igreja.”
“Eu aceitaria como razão para nossa desorganização o fato de não sermos soldados, sem que busquemos nos tornar soldados o mais rápido possível.” Já que a guerra é travada com soldados e somente com soldados, sem a firme vontade de nos tornarmos soldados disciplinados, não temos o direito de derramar sangue, nem de continuar destruindo propriedades e semeando a desordem.”
“A fim de alcançar a moralização de nossas forças, implantando a disciplina indispensável e a obediência necessária em qualquer organização militar, revivendo assim o espírito de corpo e o espírito combativo de nossas tropas, decidi fazer uma seleção de nossas tropas, que será realizada da seguinte maneira: Ao receber esta ordem, nossas tropas serão informadas de que, a partir desta data, todo indivíduo que desejar ter a honra de se tornar um Soldado de Cristo deverá jurar as seguintes obrigações:
“a) Ele é obrigado a servir por pelo menos seis meses, sem abandonar o serviço, sob pena de ser considerado desertor do inimigo.
“b) Ele é obrigado a obedecer cegamente aos seus superiores.”
“c) Ele é obrigado a não se embriagar enquanto for um Soldado de Cristo.”
“d) Ele é obrigado a suportar, sem qualquer recompensa financeira, todas as privações que uma campanha acarreta, e em nenhuma circunstância pode reclamar da má qualidade ou da pequena quantidade de alimentos, ou da fadiga excessiva ou do trabalho pesado.
“e) Ele é obrigado a não murmurar contra as disposições ou ordens de seus superiores, nem dizer nada que possa prejudicar o serviço, perturbar o moral ou causar desmoralização entre seus camaradas.
“f) Todos aqueles que não estiverem dispostos a prestar o juramento serão dispensados, e suas armas e cavalos serão confiscados.
“g) Cada capitão fará uma lista nominal dos indivíduos que prestarem juramento, anotando nela as armas e munições que possuem, e separadamente fará uma declaração do excedente de armas e munições resultante dessa seleção. Com essa lista, eles informarão aos chefes de seus respectivos regimentos e estes ao quartel-general.”
O machado literário funcionou. Livres da escória, os homens de Gorostieta cresceram e formaram uma unidade coesa, tática e ideologicamente. Camponeses, agricultores, pecuaristas, pastores, estudantes universitários, padres, comerciantes e outros se transformaram em soldados. Seu general ensinava pelo exemplo, liderava pelo exemplo. Tudo o que exigia de seus homens, ele era o primeiro a fazer. Para onde quer que enviasse seus homens, ele era o primeiro a ir. E, quando cercado pelo perigo, sempre tentava manter a calma por seus homens, que se uniam a ele por um afeto fraternal – e até mesmo, talvez, filial – não como resultado da disciplina militar. Ele se orgulhava deles, especialmente do fato de nunca ter precisado fuzilar nenhum deles por insubordinação.
Se algum dos seus homens passasse fome, ele também passava. Alguns dias comiam. Outros, não. E o general – como qualquer soldado – sofria de fome junto com seus homens. Não recebia tratamento especial. Se comiam alguma coisa, geralmente eram tortillas e sal. E café. Às vezes, feijão cozido. Ocasionalmente, por sorte, conseguiam comer algum tipo de carne, talvez carne seca, talvez chili – um ensopado com feijão e carne. Em dias especiais, como sobremesa, fumavam charutos.
Certa vez, durante uma marcha, sofrendo de fome extrema, muitos romperam a formação da coluna e correram para um cacto próximo, onde devoraram as partes comestíveis dos cactos figo-da-índia – folhas e frutos com casca e tudo – apesar dos espinhos e gloquídeos. Gorostieta estava entre eles, com a boca cheia. Em outro dia, os homens compraram farinha para fazer tortillas do zero para assar nas fogueiras. Todos, exceto o Coronel Manuel Ramirez de Oliva, sabiam amassar a massa até formar uma bola e espalhar a mistura maleável para fazer as tortillas, então o general gentilmente se ofereceu e fez o pão achatado para ele.
A vida militar era difícil, desconfortável, repleta de fome, frio e até piolhos, obrigando os homens a ferver as roupas a cada parada. Às vezes, cavalgavam sob chuvas torrenciais. Outras vezes, sofriam com o frio intenso ou o calor extremo. Mas Gorostieta nunca reclamava, por mais mal que se sentisse. Nunca demonstrava cansaço, por mais exausto que estivesse. E, quando chegava a hora de se recolher para dormir, como o resto dos seus homens, simplesmente largava as alforjas do cavalo no chão, deitava-se sobre elas e apoiava a cabeça na sela. No campo, cobertores eram um luxo.
Embora se sentisse confortável com o desconforto da guerra e estivesse cercado por soldados que o respeitavam e admiravam, ainda assim, sentia uma extrema saudade de sua família, especialmente após o nascimento de sua filha, em 25 de janeiro de 1928, depois do qual escreveu à sua esposa:
“Soube pelo Luis que você está bem e que as crianças estão com você. Estou um pouco desesperada para ver nossa filhinha. Não sei como ela é nem qual é o nome dela. Preciso me manter firme. Bendito seja Deus, que preservou a todos. Cuide-se bem e proteja as crianças. Não desanime. Quando estiver com medo ou cansada, ore, ore. Isso logo vai passar, eu lhe asseguro, e você receberá sua recompensa. Tenho estado com uma saúde admirável e cada vez mais confiante de que tudo vai acabar bem. Acompanhe como tudo o que eu disse está se concretizando.”
“Não deixem que Kiko ou Nillo se esqueçam de mim, e mandem a todos eles, especialmente à garota, os beijos que eu lhes enviei.”
Com a aproximação do aniversário de seu primeiro ano de serviço oficial, devido à sua dedicação e desempenho excepcional, o Comitê Executivo da Liga anunciou, em 17 de julho de 1928, sua decisão de elevá-lo ao cargo de generalíssimo, o general supremo dos Cristeros, com efeito a partir do dia seguinte, 18 de julho.
Uma prática comum entre os líderes militares revolucionários no México era imprimir manifestos, panfletos políticos que expressavam sua ideologia e intenções, seguindo o exemplo do Manifesto Comunista, um discurso repleto de ódio do “Pai do Comunismo”, Karl Marx (1818-83), e seu colaborador, Friedrich Engels (1820-95), publicado em 1848.
Gorostieta compôs seu manifesto com os ideais do Movimento Cristero de Libertação, tais como: a proteção de todos os povos, a liberdade de todos os povos, o fim da prejudicial Constituição de 1917 e a restauração da Constituição de 1857. Com a ajuda de Miguel Palomar y Vizcarra (1880-1968), que auxiliou na elaboração da versão inicial, Gorostieta revisou, corrigiu e assinou a versão final, a ser publicada no mesmo dia da declaração pública de sua liderança, em 28 de outubro de 1928, último domingo de outubro, dia da consagração da Festa de Cristo Rei.
Em seu manifesto para a Santa Lucha, ele começou: “Por mais de um ano, o povo mexicano, farto da vergonhosa tirania de Calles e seus apoiadores, pegou em armas para recuperar as liberdades que esses déspotas lhes tiraram, especialmente a liberdade religiosa e a liberdade de consciência.”
O motivo da luta, explicou ele, “resumia-se nesta única palavra: LIBERDADE (assim como defendem os neocons, que se dizem católicos, mas gostam tanto do que promove a Direita-Liberal-Maçônica): Liberdade de consciência e religião, liberdade de educação, liberdade de associação, liberdade de trabalho, liberdade de imprensa: todas as liberdades!” (blá-blá-blá)
E ele concluiu: “Continuarei convosco, como antes. Como antes, sofrerei fome e sede convosco. Como sempre, lutarei ao vosso lado. Como sempre, exigirei lealdade e obediência, coragem e abnegação. Como antes, ofereço-vos a ida até ao fim e, como antes, pela única recompensa: a satisfação de cumprir o vosso dever. Tenham coragem, a vitória está próxima e, agora, mais do que nunca, isto é verdade. Exorto-vos a ouvir de todos os lados e em todos os momentos apenas o nosso grito de guerra: Viva Cristo Rei! Viva a Virgem de Guadalupe! Morte ao mau governo!”
Em conjunto com a sua declaração, o Comitê Executivo da Liga assinou um acordo, unindo forças com as Brigadas Femininas de Santa Joana de Arco (Las Brigadas Femeninas de Santa Juana de Arco) – compostas por mães, esposas, filhas, namoradas e irmãs dos Cristeros.
Gorostieta apreciava a ajuda das mulheres, que forneciam aos homens nos acampamentos e no campo de batalha suprimentos essenciais: comida, armas e munição, muitas vezes furtados de quartéis federais e da Fábrica Nacional de Armas, na Cidade do México. Mas a convivência dos soldados com as mulheres às vezes causava problemas. Contudo, Gorostieta – um homem de fortes convicções – sempre refreou suas paixões e controlou seus impulsos; afinal, ele tinha prioridades: sua fé e sua família.
No entanto, ocasionalmente ocorriam mal-entendidos, como o que aconteceu com Josefina “Pina” Carmona, uma jovem de 21 anos de San Esteban, em Jalisco, que se atirou aos braços do general numa cena emotiva e histriônica, presenciada pelo seu ajudante, o major Heriberto Navarrete Flores (1903-1987), que cortejava a irmã de Pina, Ana Maria Carmona, de 19 anos.
Enquanto cavalgavam lado a lado, Navarrete e Gorostieta discutiam o dramático incidente em que o general rejeitou a mulher, sem jamais tocá-la.
Navarrete comentou: “Sei que Pina poderia ter pensado que cabia a ela dar o primeiro passo e, nesse caso, seria difícil encontrar um homem capaz de resistir à provocação de uma garota como ela.”
“Bem, você já o encontrou”, gabou-se Gorostieta. “Ela declara um desejo irresistível de viver na minha companhia. Está disposta a tudo e não teme nada. Você já deve ter adivinhado minha resposta. Com muita simpatia e compaixão, tentei tranquilizá-la. Disse-lhe que seu plano era absurdo por razões óbvias. Em primeiro lugar, sou o representante máximo do nosso Movimento, uma organização de grande repercussão, não só a nível nacional, mas também em todo o mundo, onde os detalhes da nossa luta são acompanhados. Mas essa não é a consideração mais importante para mim. O que importa é que sou casado, que adoro minha esposa e meus três filhos, e que, no dia em que os reencontrar, Deus me livre de sentir vergonha ao me apresentar diante deles, carregando na consciência a sombra da infidelidade.”
Navarrete respondeu: “Admiro-te muito mais agora do que quando estávamos juntos resistindo a um ataque inimigo, ou marchando em linha de fogo, ou perseguindo avidamente os Callistas.”
“Sou um soldado nato. Minha juventude foi feliz e eu a aproveitei ao máximo. Mas não há uma única pessoa no mundo que possa, com justiça, me fazer baixar os olhos de vergonha por ter manchado a honra do meu nome. Jamais minha consciência foi maculada por um ato de baixeza ou desonra moral.”
“Um belo legado para seus filhos”, elogiou Navarrete.
“Minha ambição é maior. Não digo que a felicidade do lar – baseada no afeto caloroso e na estima mútua entre pai, filhos, marido e mulher – não seja suficiente por si só para viver em paz e contentamento. Mas meus objetivos são de outra ordem. O respeito à minha pátria, identificado com o meu próprio, e, finalmente, o respeito e a reverência a Deus e à Sua Lei. Sacrifiquei os prazeres da vida familiar, em uma família amorosa e exemplar como a minha, mas existem valores muito mais elevados. Existem valores que, para serem bem compreendidos, não devem ser negligenciados e cuja salvaguarda exige heroísmo: o sacrifício da própria felicidade na vida.”
Com a chegada do inverno em 1929, cerca de 30.000 soldados do Exército Constitucionalista reclamavam da situação precária após a instauração do Maximato, assim chamado por causa do apelido de Calles, “El Jefe Maximo”, o “Líder Supremo”. Pois o verdadeiro senhor por trás do trono presidencial era Calles, que continuou a exercer seu domínio absoluto sobre o poder, mesmo depois de nomear Emilio Candido Portes Gil (1890-1978) como presidente do México, empossado em 1º de dezembro de 1928.
Para destruir o regime bolchevique (maçomunista) politicamente incestuoso, as tropas rebeldes do governo começaram a se organizar secretamente, enquanto o General José Gonzalo Escobar (1892-1969) – o principal mentor do complô para derrubar a dedocracia (prática de nomear alguém para um cargo de forma arbitrária e puramente por decisão pessoal) de Portes – elaborava seu Plano de Hermosillo.
Duas semanas antes do início da rebelião premeditada, Escobar assinou um pacto com representantes de Gorostieta, que aprovaram o acordo e emitiram a Ordem Circular nº 5, declarando que o acordo foi firmado devido ao “compromisso solene do novo movimento em conceder todas as liberdades que temos reivindicado, especialmente a liberdade de consciência e de educação, e o pleno reconhecimento da Guarda Nacional… reconhecida como entidade, o que garante que ela não frustrará nossa vitória e que nosso Partido terá, pela primeira vez desde 1857, todo tipo de garantia para desenvolver sua ação político-social”.
Enquanto o Exército Constitucionalista do regime marchava para o norte para sufocar a rebelião de suas próprias tropas, os Cristeros se dirigiam para Guadalajara, com a intenção de tomar a cidade, o que representaria sua primeira vitória urbana. Pois, embora os Cristeros tivessem alcançado sucesso após sucesso no campo, infligindo derrota após derrota às tropas revolucionárias, todas as cidades permaneciam sob controle federal.
No entanto, a Rebelião de Escobar teve curta duração e foi rapidamente esmagada, durando apenas de 3 de março a 30 de abril de 1929, forçando os Cristeros a recuar de Guadalajara.
E então, poucos dias depois, em maio de 1929, rumores de um possível acordo entre Igreja e Estado chegaram aos incrédulos Cristeros no campo de batalha.
O arcebispo exilado Leopoldo Ruiz y Flores (1865-1941) fez uma declaração pública em Washington, D.C. O representante autorizado do Vaticano, que também foi arcebispo de Michoacán, chefe da hierarquia católica romana mexicana e principal voz da Igreja no México por mais de 25 anos, foi citado dizendo:
“A Igreja Católica no México não pede nenhum privilégio, mas apenas que, com base em uma separação amigável entre Igreja e Estado, lhe seja permitida a liberdade indispensável ao bem-estar e à felicidade do México. O conflito religioso no México não tem origem em uma causa que não possa ser corrigida por homens sinceros e de boa vontade.”
Posteriormente, uma reportagem de primeira página na edição de 8 de maio de 1929 do New York Times relatou a resposta de Portes:
“Se o Arcebispo Ruiz desejar discutir comigo uma forma de promover a cooperação num esforço moral, para o benefício do povo mexicano, como ele almeja, terei prazer em conversar com ele sobre o assunto.”
Os comentários públicos seguiram-se a uma longa série de negociações secretas conduzidas por representantes da Igreja e do Estado, sob a influência e manipulação de Dwight Whitney Morrow (1873-1931), após sua nomeação, em 1927, como Embaixador dos Estados Unidos no México. Ele não só foi incumbido de remediar o fluxo constante de mexicanos que cruzavam a fronteira para os Estados Unidos, resultado da constante e violenta agitação promovida pelo governo revolucionário, como também foi escolhido para ajudar a pôr fim à guerra religiosa, negociando a paz entre as duas facções rivais, que haviam travado um kulturkampf de três anos, uma guerra cultural entre o sagrado e o secular: a Igreja queria liberdade religiosa. O Estado queria o cumprimento de todas as leis no México, inclusive as leis anticatólicas.
Morrow sugeriu um modus vivendi, um acordo para viverem juntos pacificamente.
Furioso com as negociações, Gorostieta escreveu uma carta, datada de 16 de maio de 1929, de um metafórico e simbólico “El Triunfo”, “O Triunfo”, aos bispos, alguns dos quais negociavam com o governo sem consultar a Guarda Nacional, os homens que, literalmente, arriscavam suas vidas todos os dias.
Naquele que alguns considerariam o documento público mais importante que ele já escreveu, o general enfurecido argumentou veementemente contra os arreglos, os possíveis acordos entre a Igreja e o Estado. Alguns parágrafos do texto completo revelam a profunda frustração e o ressentimento de Gorostieta:
“Desde o início da nossa luta, a imprensa nacional, e até mesmo a estrangeira, não cessou de abordar periodicamente possíveis acordos entre o chamado governo e algum membro proeminente do episcopado mexicano, para pôr fim ao problema religioso. Sempre que tal notícia surge, os homens em luta sentem um arrepio mortal invadir-lhes a alma, mil vezes pior do que todos os perigos que decidiram enfrentar, pior, muito pior do que toda a amargura que tiveram de suportar. Cada vez que a imprensa nos fala de um bispo que pode ser parlamentar do Calismo, sentimos como se levássemos uma bofetada na cara, tanto mais dolorosa por vir de alguém de quem poderíamos esperar consolo, uma palavra de encorajamento na nossa luta, encorajamento e consolo que, com apenas uma honrosa exceção, não recebemos de ninguém…”
“Há muitas e diversas razões pelas quais acreditamos que a Guarda Nacional, e não o episcopado, deve ser a responsável por resolver esta situação. É claro que o problema não é puramente religioso; trata-se de uma questão intrínseca de liberdade, e a Guarda Nacional, de fato, se constituiu como defensora de todas as liberdades e como a verdadeira representação do povo, porque o apoio que o povo nos dá é o que nos permitiu sobreviver; isso é inegável.”
“Pelo contrário, os bispos, distantes do país por qualquer motivo, viveram estes anos desconectados da vida nacional, ignorantes das transformações que esta fase de dura luta o povo sofreu e, portanto, incapazes de representá-lo num ato de tamanha transcendência. É mentira que uma autoridade constituída antes da luta possa, por si só, arrastar um povo inteiro para sofrer as consequências dos seus critérios. É o próprio povo que precisa de representação. É a vontade popular que deve ser consultada. É o sentimento do povo que deve ser levado em consideração, deste nosso pobre povo que luta na sua própria pátria contra um punhado de bastardos que se escondem atrás de uma montanha de elementos de destruição e tortura.”
No entanto, a carta nunca chegou ao episcopado. Desapareceu depois de cair nas mãos de intrigantes da Liga, que deliberadamente entregaram o despacho a uma pequena subcomissão de citadinos ligueros, habitantes das cidades da Liga, civis que o Generalíssimo detestava, porque nunca entraram nos campos de batalha e, portanto, não derramaram seu sangue pela Guerra Cristera.
Militarmente, em meados de 1928, os Cristeros haviam triunfado, mas sua incapacidade organizacional para controlar as cidades seria o estigma que acompanharia a vitória do inimigo, convenientemente aconselhada por aqueles de quem eram fantoches: os Estados Unidos, que souberam manipular a questão a seu favor, lidando com a hierarquia eclesiástica que, mais fiel à servidão do que à fé supostamente compartilhada com os Cristeros, facilitou o que parecia impossível: a derrota do movimento Cristero, ainda mais humilhado, para piorar a situação, com o exílio dos únicos prelados fiéis ao Evangelho: José María González y Valencia, Arcebispo de Durango, José de Jesús Manríquez y Zárate, Bispo de Huejutla, Hidalgo, e Francisco Orozco y Jiménez , Arcebispo de Guadalajara.
O vergonhoso ato de corrupção, pelo qual o Arcebispo de Morelia, Leopoldo Ruiz y Flores, foi o principal responsável, concedeu anistia àqueles que entregaram suas armas e revogou a proibição de culto.
A farsa se desenrolou ao longo de um ano inteiro, culminando com a declaração do fim da Guerra Cristera em 21 de junho de 1929, mas não antes do assassinato do General Gorostieta, o principal obstáculo à execução do plano. Durante esses três anos, o governo assassinou noventa padres; três anos em que aproximadamente um quarto de milhão de pessoas morreram, entre elas José Sánchez del Río, um menino de 14 anos assassinado pelo governo liberal como punição pelo “crime” de se declarar Cristero.
O padre José Aristeo Pedroza (1900-1929), visivelmente perturbado, apoiou seu general e escreveu ao arcebispo:
“Há três anos, o senhor declarou que a defesa armada contra a tirania de Calles era legal. “Não entregue suas ovelhas à lâmina do carrasco”, pediu o pároco de Arandas, um Soldado de Cristo com a patente de general de brigada, renomado por sua disciplina moral e militar, considerado idealista e, segundo rumores, por ter mantido seu voto de castidade enquanto soldado.
Apesar dos apelos de Gorostieta e de outros Cristeros para que não o fizessem, as negociações entre a Igreja e o Estado prosseguiram.
E assim também, a guerra, que se intensificou em Michoacán. As forças federais começaram a invadir o estado, na direção geral de Coalcomán, situada no sopé da Serra Madre do Sul. À frente das operações estava o talentoso militar General Lázaro Cárdenas del Río (1895-1970), governador de Michoacán, que acabaria por ser elevado à presidência do México, em 1934, e forçar Calles ao exílio.
Em 19 de maio de 1929, três dias após escrever a carta aos bispos, Gorostieta resolveu conter o fluxo de tropas federais para Michoacán, fortalecendo as posições defensivas dos Cristeros. Nomeou seu aliado de confiança, o General Alfonso Carrillo Galindo, como chefe regional daquele estado e decidiu escoltar – com um pequeno contingente de lealistas – Carrillo até sua nova região, para ajudá-lo a criar uma infraestrutura civil.
No caminho, depois de percorrer estradas secas e empoeiradas – que causaram uma forte conjuntivite em Gorostieta – a estação chuvosa chegou, encharcando tropas e cavalos. A retinta que o general enfrentou o deixou atordoado, e depois disso, ele pareceu nervoso e desconfortável.
No domingo, 2 de junho de 1929, o grupo acordou cedo nas encostas do Cerro del Proano, uma colina plana, mística e encantada, onde persistiam as histórias de que, na Sexta-feira Santa, era possível ouvir o toque de sinos dentro de uma grande rocha. Depois de se levantarem, continuaram a caminhada até às 9 da manhã, quando os 20 homens chegaram à Fazenda San José del Valle, uma estrutura do século XVIII, decadente, abandonada pelos proprietários, saqueada e cercada por uma planície estrategicamente desfavorável, a cerca de 32 quilômetros a sudoeste da cidade de Atotonilco el Alto.
Exaustos da longa e árdua jornada, os homens entraram no pátio, onde largaram as selas, retiraram os freios, alimentaram e deram água aos cavalos e, em seguida, sentaram-se para saborear montes de pão doce e jarras de leite fresco que haviam comprado no hotel.
Antes de se instalar num quarto ao lado do salão, onde pudesse descansar o corpo e os olhos, Gorostieta encomendou para si e para os seus homens uma refeição de tatemada e carne de cabra, cuja preparação levaria a maior parte do dia. Alguns dos seus homens dirigiram-se então a uma pequena loja em frente à fazenda. Outros subiram ao telhado, de onde podiam vigiar.
Apenas 65 minutos após chegar à fazenda, o vigia solitário postado na torre soou o alarme. Ele avistara a vanguarda do 42º Regimento de Cavalaria do Exército Constitucionalista, com 300 homens, liderado pelo major Plácido Nungaray Garza. Lentamente, a coluna de homens e cavalos emergiu da ravina, onde uma estrada de terra partia de trás de algumas cabanas de adobe em frente à fazenda. A linha de tropas se aproximava preguiçosamente.
Um dos Cristeros, da porta da loja da fazenda, disparou seu revólver contra eles. Outro, o Coronel Rodolfo Loza Marquez, entrou correndo. As tropas federais notaram que ele carregava um capacete saracof, comum entre os militares do governo, e pensaram que os homens dentro da fazenda poderiam ser, na verdade, seus aliados agraristas, liderados pelo General Saturnino Cedillo Martinez (1890-1939), de Potosí.
“Não atirem! “Não atirem!” Gritou um dos agentes federais.
Confusos, os gritos de “não atirem” cessaram, até que um dos Cristeros gritou “Viva Cristo Rei!”, o que iniciou uma saraivada de tiros, assustando os cavalos, que empinaram, dificultando a colocação das selas e freios.
Levantando-se e calculando o perigo, Gorostieta chamou seu cavalo e ordenou: “Temos que sair daqui de qualquer jeito. Todos, montem imediatamente. Vamos embora antes que nos cerquem!”
Após o atraso do seu cavalo, ele montou rapidamente, agarrou seu grande crucifixo Taxquena de prata pura, olhou para ele e galopou a toda velocidade, mas foi recebido por uma saraivada de balas, que derrubou seu relicário. A pé, ele escapuliu de volta pelo portão da fazenda, ainda disparando sua pistola semiautomática Spanish Star calibre .45.
“Aqueles homens imundos mataram meu cavalo”, disse ele, indignado.
“O que devemos fazer, meu general?”, perguntou um de seus homens.
“Lutem como os bravos e morram como homens!”, respondeu ele.
Cercados, lutaram com determinação.
Aproveitando uma brecha na linha inimiga e escapando por ela, o ajudante de Gorostieta, Navarrete, junto com o coronel Rodolfo Loza Marquez e um soldado chamado Jesusillo, fugiram a pé por um laranjal.
Com a Estrela da Espanha em mãos, Gorostieta seguia de perto, mas deu de cara com o soldado chihuahua Gilberto Ponce Villa, de apenas 22 anos, que estava em vantagem e apontou sua metralhadora de 7 mm para o general.
Gorostieta largou a pistola, ergueu as mãos e se rendeu, dizendo: “Eu me rendo”.
Ao se aproximar do prisioneiro para revistá-lo, Ponce foi surpreendido por um movimento. Sem hesitar, puxou o gatilho e abriu fogo, atingindo Gorostieta no peito, ferindo-o, mas não matando-o.
O segundo-tenente Benito Quiroz Luna aproximou-se rapidamente.
“Eu sou Enrique Gorostieta”, pronunciou o general Cristero, suas últimas palavras antes de Quiroz erguer seu fuzil Mauser 7mm e atirar em sua cabeça, quase à queima-roupa.
Após a prisão dos Cristeros restantes, soldados federais arrastaram o corpo do único Cristero morto, um soldado despojado de suas botas.
“Quem é ele?”, perguntou Nungaray, chefe da coluna de ataque.
Ninguém respondeu.
“Como assim, você não o conhece?”, perguntou ele.
Um Cristero deu um passo à frente.
“É o General Gorostieta.”
Transportado em um vagão ferroviário especial, número 10.571, e guardado pelo major federal Sostenes Garcia, juntamente com uma escolta de 20 homens, o corpo de Gorostieta chegou à Estação Colônia em 5 de junho de 1929. Recebido por seu cunhado, o corpo foi transportado para a casa da família Rivera Gorostieta em Atzcapotzalco. Durante dois dias e duas noites, padres ofereceram missas contínuas, 24 horas por dia, até 7 de junho, quando o general foi sepultado. O epitáfio em sua lápide: Ele foi um cristão, um patriota, um soldado e um cavalheiro. Teve um ideal em sua vida e morreu por ele: Deus, Pátria e Liberdade.
Logo após a morte do marido, Tulita recebeu uma carta pelo correio. Era a última carta dele, datada de 17 de maio de 1929 e enviada em 30 de maio, na qual ele descrevia a causa que defendia como uma causa “de honra e justiça” e um “dever sagrado”.
Mas sua carta datilografada também incluía uma frase bastante comovente, destinada a acalmar seus temores sobre os perigos que ele enfrentava diariamente: “O que eu quero que você se lembre é que eu não estarei mais exposto a balas.”
BIBLIOGRAFIA
“El Automóvil de los Tratados de Teoloyucan”, de Histórico Teoloyucan.
“El Niño Teste de Cristo Rey: José Sánchez del Rio, Mártir Cristero”, de Luis Laurean Cervanates.
“La Constitución de los Cristeros”, de Vicente Lombardo Toledano.
“La Cristiada: Los Cristeros III”, de Jean Meyer.
“Le Généralissime Cristero Gorostieta: L’Homme, le Militaire et le Héros Tome I”, de Juan Pablo Herrera Castro.
“México Cristero: História da ACJM 1925 a 1931”, de Antonio Rius Facius.
“Santiago de Xalpa Mineral: A História de um Povo”, de Hector Pascual Gomez Soto.
“Viva Cristo Rei! A Revolta Cristera e o Conflito Igreja-Estado no México”, por David C. Bailey.
“El Porqué del Partido Católico Nacional”, por Francisco Banegas Galván.