O ícone de Nossa Senhora de Częstochowa está maternalmente associado à Polônia. Sua história antes de chegar à Polônia está envolta em inúmeras suposições que remontam à pintura do ícone a São Lucas, Apóstolo e Evangelista, que o havia pintado no tampo da mesa de cedro da casa da Sagrada Família, a qual afirma que a pintura foi descoberta em Jerusalém em 326 por Helena, que a levou para Constantinopla e presenteou a seu filho, Constantino.

Antes de chegar à Polônia, o ícone estava guardado no Castelo de Belz (atualmente na Ucrânia, perto da fronteira polonesa). Naquela época, a região da Rutênia era disputada entre o Reino da Polônia, o Grão-Ducado da Lituânia e os principados eslavos do leste.

Em 1382, o príncipe polonês Vladislau/Ladislau II³ de Opole (Władysław Opolczyk), que servia como governante da Rutênia em nome do rei Luís I da Hungria e Polônia, decidiu levar a imagem para sua cidade natal, Opole, para protegê-la de ataques de invasores (especialmente tártaros). Durante um cerco ao Castelo de Belz, uma flecha tártara atingiu a garganta da Virgem no ícone. Uma névoa milagrosa teria descido sobre os invasores, forçando-os a recuar. E, enquanto Ladislau viajava com o ícone, seus cavalos pararam na colina de Jasna Góra e se recusaram a seguir viagem. Ele interpretou isso como um sinal divino de que a Virgem desejava permanecer ali. Vladislau entregou o ícone aos monges paulinos (Ordem de São Paulo, o Primeiro Eremita), que haviam vindo da Hungria a seu convite para fundar o mosteiro em 1382.

 

O Cerco de Jasna Góra ocorreu no inverno de 1655, durante a Segunda Guerra do Norte, como é conhecida a invasão sueca da República das Duas Nações (Polônia-Lituânia). Os suecos tentavam capturar o mosteiro de Jasna Góra em Częstochowa. O ícone sagrado foi substituído por uma cópia e o original foi transferido secretamente para o castelo em Lubliniec e, posteriormente, para o mosteiro paulino em Mochów, entre as cidades de Prudnik e Głogówek. Setenta monges e 180 voluntários locais, em sua maioria da Szlachta (nobreza polonesa), resistiram a 4.000 suecos por 40 dias, salvaram seu ícone sagrado e, segundo alguns relatos, mudaram o rumo da guerra. Este evento levou o Rei João II Casimiro Vasa a prestar o que ficou conhecido como o Juramento de Lwów¹. Ele submeteu a República das Duas Nações à proteção de Nossa Senhora e proclamou-a Rainha da Polônia na catedral de Lwów em 1.º de abril de 1656.

O Papa Clemente XI emitiu um decreto pontifício de coroação canônica da imagem em 8 de setembro de 1717. Ela também foi agraciada com três rosas de ouro pontifícias. Foi a primeira vez que uma imagem mariana recebeu uma coroação pontifícia fora de Roma (sendo precedida apenas por dois outros casos em regiões próximas). Com esse ato, o Papa reconheceu formalmente a imagem como milagrosa e consolidou o título de Rainha da Polônia, que já era aclamado pelo povo e pelo rei João Casimiro.

Em 1909, as coroas originais (incluindo as enviadas por Clemente XI) e o manto precioso da Madona foram roubados. Ao saber do ocorrido, São Pio X prontamente ofereceu novas coroas de ouro para substituir as que haviam sido levadas. Em 22 de maio de 1910, as novas coroas abençoadas pelo Papa foram colocadas no ícone. Pio X expressou sua profunda união com a fé dos poloneses, vendo no ícone um símbolo da unidade cristã e da resiliência de um povo que, na época, ainda lutava por sua soberania nacional.

Em 1.º de abril de 1656, durante uma Santa Missa solene na Catedral de Lviv, rezada pelo legado papal e núncio apostólico na Polônia, o cardeal italiano Pietro Vidoni, o Rei João Casimiro (João II Casimiro Vasa, Rei da Polônia e Grão-Duque da Lituânia), em uma cerimônia grandiosa e elaborada, confiou a República das Duas Nações à proteção da Sempre Virgem Maria, a quem anunciou como Rainha da Coroa Polonesa e de seus outros países. Na ocasião, ele aproveitou também para jurar proteger o povo do Reino de quaisquer imposições e servidão injusta. Atualmente, não “só” a Virgem Maria continua sendo reconhecida como a Rainha da Polônia, como Cristo Rei é o Rei da Polônia.

Curiosidade: as duas cicatrizes na face direita da Madona Negra (Nossa Senhora Negra), recordando que os hussitas (iconoclastas tchecos)² invadiram o mosteiro paulino em 1430, saqueando o santuário. Entre os objetos roubados estava o ícone. Os hussitas tentaram fugir depois de o colocarem na carroça, mas os cavalos recusaram-se a mover-se. Atiraram o retrato ao chão e um dos saqueadores desembainhou a espada contra a imagem, desferindo dois golpes profundos. Quando o ladrão tentou desferir um terceiro golpe, caiu no chão e agonizou até à morte.

Nota 1: O Juramento de Lwów. Como quase todo o país estava ocupado pelos exércitos sueco e, também, russo, o objetivo do juramento era fomentar toda a nação, principalmente o campesinato — ou seja, os camponeses, assim como ocorreu, posteriormente, na França com os Vendeanos e no México com os Cristeros, para citarmos apenas dois exemplos — a defender a fé católica e a resistir contra os invasores. Assim, as duas principais questões levantadas pelo rei nos juramentos foram, em primeiro lugar, a necessidade de proteger a fé católica, vista como ameaçada pelos agressores luteranos e, parcialmente, pelos tortodoxos russos, e, posteriormente, a manifestação da vontade de melhorar a condição do campesinato.

Nota 2: Os hussitas faziam parte de um movimento proto-protestante tcheco influenciado tanto pelo rito bizantino quanto pelo deformador heresiarca John Wycliffe, que seguiu os ensinamentos do deformador heresiarca Jan Hus, fazendo parte da Deforma Boêmia. Se quiserem saber mais sobre os hussitas, infelizmente não temos PDFs disponíveis, então o jeito será recomendarmos que leiam no link da Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Hussites

Nota 3: Vladislau II de Opole era bisneto de Vladislau I de Opole que aumentou a importância da Santa Igreja em suas terras ao fomentar a fundação de muitos mosteiros, como os Dominicanos em Racibórz, os Cistercienses em Rudy, os Franciscanos em Wodzisław e Głogówek e os Beneditinos em Orlová.

OUTROS FEITOS DE CLEMENTE XI

Clemente XI canonizou Sancha de Portugal em 10 de maio de 1705, Teresa de Portugal em 20 de maio de 1705 e Pio V em 22 de maio de 1712, dentre outros.

Em 1713, Clemente XI emitiu a bula Unigenitus em resposta à propagação da heresia jansenista.

Clemente XI estendeu a festa de Nossa Senhora do Rosário à Igreja Universal do Rito Romano em 1716.